Escola com Sabor (home) Mascote Manzi









Ela inicialmente não fazia parte da formação do Escola Interativa. Porém, com a participação no projeto das colegas professoras da sua Escola, a Municipal Teodoro Sampaio, Ivone Anunciação Souza foi se aproximando. Hoje é uma das professoras mais ativas e animadas do programa, dando um novo tom a forma das aulas no colégio, articulando o uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação com o conteúdo de sala de aula.


Confira a entrevista feita por Juliana Machado.

Escola Interativa - Como é o trabalho de parceria laboratório de informática com as outras disciplinas?

Ivone Anunciação - A informática é um recurso. A gente deixa bem claro isso. Não é uma disciplina. A gente não dá nota, não faz chamada, não dá assunto. Também não é um curso de informática. Uma coisa é a informática na educação, outra coisa é o curso de informática. O laboratório é como uma sala de aula – o professor vem dar a aula utilizando esse recurso, essa ferramenta. Os professores vêm com conteúdos e propósitos que pode ser ou de introduzir, de finalizar ou de aprofundar um tema. A gente então programa, define os horários, conversa com cada professor para ver o que é possível fazer com o conteúdo dele, se é possível fazer alguma atividade em que os meninos façam alguma produção e possam se sentir mais motivados – atividades que não se limitem a ler e escrever. Trabalhamos com Internet, com o Paint, Excell, Word e Power Point.

Escola Interativa - Você destacou seu papel de sentar com cada professor para planejar. Isso significa que você aqui na escola tem que um olhar transversal, é como uma consultora. Quando chega uma tecnologia nova, as pessoas têm que mudar sua maneira de pensar. Não é só o ambiente que muda. Modifica-se também a forma de pensar, de trabalhar, os procedimentos são outros.

Ivone Anunciação - Acho que é isso. Eu tento deixar o professor bem à vontade, mesmo que ele não saiba trabalhar com a máquina, mas que entenda que pode trabalhar com a informática. Eu digo: “a questão da máquina deixe comigo, você se preocupe com o conteúdo com o método”. A filosofia do laboratório é esta. O professor vem, mas vem para produzir. O meu trabalho é principalmente um trabalho de coordenação. Não posso deixar o trabalho do laboratório cair. Então eu vou atrás mesmo, para seduzir, trazer professor novo, professor velho. Para que eles venham fazer um trabalho aqui no laboratório, que incentive os meninos, aproveitando o fato de que eles são loucos mesmo pela máquina. Eles são seduzidos pelo computador. Então quando eles vêm, a disciplina é outra. Eles se comportam aqui de maneira bem diferente que em sala de aula, mesmo que seja para ler um texto (o que em sala de aula às vezes custa). Uma vez uma professora disse: “Ivone Anunciação, se eu tivesse lendo na sala, era capaz de eu ter recebido este texto até na cara”. Aqui é diferente. Eles têm outro comportamento: eles ouvem mais, se comportam de outra forma. Até em relação aos conteúdos mais difíceis o comportamento aqui é outro.

Escola Interativa - Qual a sua opinião sobre a influência dos meios de comunicação na nossa vida?

Ivone Anunciação - Veja bem, a escola tem até que por obrigação acompanhar o desenvolvimento das tecnologias. Imagine que há poucos anos atrás, a gente tinha uma TV que a válvula era enorme. Hoje está tudo muito avançado e a gente tem que acompanhar esta evolução. A escola não pode ficar distante. Até porque é uma evolução que seduz as pessoas, principalmente os meninos. Colocar o menino para assistir um filme, uma reportagem e trabalhar o conteúdo de maneira interligada, é diferente de você apenas utilizar a “tecnologia do quadro e do giz” (afinal isso não deixa de ser uma tecnologia). Eu acho de extrema importância que realmente se saiba trabalhar, porque às vezes se confunde este trabalho com os meios com um mero momento de descanso ou de diversão. “Ah, deixa os meninos lá na informática para desenharem qualquer coisa porque eu tô cansada” isso não pode acontecer. Ai se está deturpando o uso dos meios. Quando você usa para facilitar, para acessar novos conhecimentos e dá a eles visões diferenciadas, até mesmo para facilitar a interdisciplinaridade dos diversos meios (filmes, jornais, computador, etc.) Você tá investindo para ter um ganho maior em seu trabalho, até em termos de tempo. Este investimento pode dar um trabalho enorme agora, mas no futuro vai representar um ganho.

Escola Interativa - E como você vê o impacto destes meios nas relações humanas?

Ivone Anunciação - O uso das tecnologias nas famílias é até uma forma de você disciplinar ou às vezes de se livrar da criança. Muitos usam neste sentindo: deixa o menino a manhã toda vendo televisão. Mas eu acho que também tem muita coisa boa. A televisão tem muito lixo, mas também tem muita coisa boa também e até mesmo este lixo pode servir para você aumentar a criticidade da criança e do adolescente. Mas para isso, é preciso um acompanhamento e esse tempo de acompanhar é complicado. O nosso momento nem sempre permite: a mãe trabalha, pai trabalha, professor trabalha 60 horas... Que horas pode sentar com o menino para saber se o programa é bom ou ruim? Como ela pode sentar par assistir os desenhos que ele tá acostumado a assistir junto com o menino? Ë importante que o adulto desafie o menino a olhar a propaganda, o desenho com outro olhar, mas como fazer isso?

Escola Interativa - E qual é o meio que você acha mais fascinante?

Ivone Anunciação - (Risos) Eu gosto de tudo que tem a ver com a informática. Gosto muito da TV porque acho que tem muita coisa interessante para ver, trabalhar e se divertir. Mas para mim, o grande “tchan” é ainda a informática e a internet. Para a escola ainda são tecnologias novas e fascinantes

Escola Interativa - E você acha que a presença dos meios modifica os hábitos de leitura e escrita dos indivíduos?

Ivone Anunciação - Eu acho que modifica, o bate papo, por exemplo. É um dos que mais modifica a escrita. Aí tudo é abreviado. Eu posso te dizer que sou uma ignorante nessa coisa da abreviatura da escrita na internet. Nessa nova linguagem, arrisco um “vc” e um “pq”. Às vezes, fico observando os meninos batendo papo e não entendo quase nada. São tanta as gírias e abreviaturas que eles usam para agilizar a escrita. Eu entendo muito pouco. Para mim tudo cai na questão da orientação mesmo. Quando eles entram no bate papo, se é o bate papo pelo bate papo, isso não tá na área da escola. Se aquilo não for devidamente trabalhado, você pesca alguns erros brutais: saudade com ç e aí você pode até dizer, “ah o menino tá escrevendo”. Tá, mas escrevendo saudade com ç? Não sei se isso é um avanço. É um avanço ele querer escrever, mas não é tanto avanço quando a gente observa que ele não percebe que saudade tá escrito errado.

Escola Interativa - E em relação aos hábitos de leitura?

Ivone Anunciação - Acho que aqui, na nossa realidade, eles lêem menos porque demoram mais tempo para ler. Quando eles aprendem a ler, eles já aprendem a ler distanciados dos livros. Eles lêem com finalidades como ler para uma prova, Não tem aquela coisa da leitura expansiva, aquela leitura como hábito, leitura de jornal, de livros. Aqui os professores tão atinando para isso e tentando mudar esse quadro, tentando desenvolver esses hábitos desde a alfabetização já que no ambiente dele familiar têm pouco contato com a leitura. Alem disso, ainda tem a referência forte da televisão, que dá tudo pronto para eles. Agora a gente tá pegando meninos nessa escola com cinco anos, e ai a gente pode fazer um trabalho mais diferenciado. Mas até ano passado, os meninos entravam aqui na escola com sete anos. A realidade nossa é de meninos de sete anos que trabalham, carregam compra, ajudam os pais na feira, lavam carro, são ajudantes de pedreiro. Ganham dinheiro para ajudar o sustento da família. Quando eles vêm para a escola já depois de ter passado muitas horas na rua, vem com a roupa mesmo rasgada, suada, suja, de pé no chão, brincando onde ele quer, definindo suas próprias leis e brincadeiras... Então veja, chega com sete anos com este costume e entra em choque com as demandas da escola que cobra dele. E ainda, ouvindo o professor falando um monte de coisa que ele não consegue fazer uma conexão entre a vida que ele tinha e o que o professor quer que ele aprenda.

Escola Interativa - Qual é o ganho para o professor e para o aluno em se trabalhar com a interdisciplinaridade, meios de comunicação e tecnologias?

Ivone Anunciação - Eu acho que quando o aluno produz alguma coisa o ganho é muito grande. Tem aprendizado de fato. A forma de expressar muda, o comportamento muda. A gente vê mesmo na fisionomia, na auto-estima, no cuidado com o caderno e livros, pelo relacionamento, pela maneira de reivindicar, de se expressar, até mesmo pelas notas. Você nota que aquele conteúdo não é descartado. Quando eles produzem um cordel, um poema ou outra coisa para o site isso é um registro do que ele aprendeu. Para o profissional é importantíssimo porque um professor que trabalha nessa linha está valorizando toda a classe isso do ponto de vista profissional; ele tá demonstrando que o professor pode fazer algo diferente e com significado. O aluno ganha para toda a vida.


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