Escola com Sabor (home) Mascote Manzi









A Educação além da Sala, do Pátio, da Escola
A experiência do Projeto Escola Interativa na Rede Pública de Ensino de Salvador.
Por Tatiane Souza, com colaboração de Mônica Santana*

Tatiane Rios*

Resumo:
O artigo aborda a experiência do Projeto Escola Interativa, uma iniciativa da Organização Não-Governamental CIPÓ Comunicação Interativa em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Salvador, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Instituto Telemar. Expondo os desafios da educação na sociedade contemporânea, estruturada pelos meios de comunicação, o texto aborda a metodologia da Educação pela Comunicação como uma alternativa para efetivação dos novos paradigmas da educação.

Artigo:

“A possibilidade de aprender é muito mais ampla que a possibilidade de ensinar”
Guillermo Orozco Gómez

A epígrafe do texto nos dá uma pista para compreender o desafio do processo educativo: aprender é algo dinâmico e natural, espontâneo e prazeroso, enquanto ensinar é um processo de intervenção na realidade e construção de sentido. No contexto da sociedade contemporânea, estruturada pelos meios de comunicação, esta afirmação ganha mais significado: estamos aprendendo o tempo inteiro. Tomando a escola como espaço de emancipação do sujeito é que surgem a experiência do Projeto Escola Interativa e os pressupostos da metodologia da Educação pela Comunicação, que aqui iremos expor.

Vivemos numa sociedade globalizada, ambientada e estruturada pelos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, a humanidade ainda enfrenta seus problemas crônicos, fome, pobreza, diferenças sociais, países desenvolvidos e subdesenvolvidos, que convivem e constroem realidades de maneira particular. A informação passa a ser mais um aspecto da desigualdade, sendo também o de maior relevância para a transformação social.

Acessar, selecionar, compreender e produzir mensagens cotidianamente são tarefas necessárias para se interagir neste ambiente, nesta sociedade. Isto não significa apenas ter acesso aos meios tecnológicos, mas possuir discernimento para compreender criticamente as demandas sociais, desenvolvendo uma postura ética e cidadã. Este aspecto da formação do indivíduo contemporâneo diferencia-se daqueles relacionados estritamente à percepção, necessita ser desenvolvido. Esta é a principal tarefa da educação atual.

Educação pela Comunicação
O objetivo de se propor o uso educativo dos meios, longe de significar a absorção pura e simples dos conteúdos e discursos acerca das novas tecnologias, é o de equipar intelectualmente alunos e professores para o melhor entendimento dos significados, mecanismos de ação e resultados práticos ensejados pelos meios de comunicação. Obviamente, essas pretensões de mudança têm sérios desdobramentos e um dos mais significativos diz respeito à formação do professor.

Mais amplo que proporcionar o acesso qualificado das crianças e jovens aos produtos comunicacionais, a proposta da Educação pela Comunicação, como entendemos e experimentamos neste Projeto, é promover a ação, a produção de mensagens e peças de comunicação. “Para atingir tal intento, a metodologia estrutura-se em onze princípios fundamentais: Integridade, Observação crítica e experimentação, Qualidade, Interatividade, Inclusão, Motivação, Afetividade e cooperação, Criatividade, Protagonismo, Intencionalidade, Contextualização e sentido” 1.

Estes princípios foram sistematizados ao longo de mais de cinco anos de experiência da ONG CIPÓ Comunicação Interativa com projetos de Educação pela Comunicação em Salvador, na Bahia. Eles estão relacionados não apenas ao processo educativo e produtivo, que pressupõem trocas, experimentação, ampliação de referências, mas intrinsecamente ligados aos novos paradigmas da sociedade contemporânea, como os Quatro Pilares da Educação para o Século XXI 2(Aprender a Ser, a Conviver, a Fazer e a Aprender) e os Códigos da Modernidade3.

Diálogo na escola
“ Professor, por que o nosso bairro é tão marginalizado?”, pergunta um aluno na aula de Língua Portuguesa. O professor pára, pensa um pouco e resolve não interromper a indagação com uma resposta pronta, mas devolve a bola para a turma: “O que vocês pensam disso? Vamos investigar?”, propõe. Esse pode ser o início de um projeto bastante interessante na escola, onde os alunos irão pesquisar sobre a imagem que a sociedade (entorno, cidade, país) tem deles e a sua auto-imagem. O trabalho pode ser melhor enquadrado nas disciplinas de história ou geografia, mas a problemática surgiu na aula de português. Nem por isso, a pergunta fica sem resposta.

O professor pode decidir envolver os demais professores e ir em busca de uma resposta que possa convencer os seus alunos. Isto é, tornar a aprendizagem significativa, contextualizar o ensino. É um bom começo. A partir daí, todos os materiais visuais, textuais, auditivos são elementos para a pesquisa. Como nosso bairro aparece nos jornais? Em que seções? Com que características? Como nos relacionamos com isso? Quem são os moradores? Qual a sua história... esse projeto acaba saindo da sala de aula, da escola. Ganha a comunidade.

Mais ou menos dessa forma surgem os projetos educativos no Escola Interativa. Criado em 2000, pela Organização Não-Governamental CIPÓ Comunicação Interativa em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Salvador (SMEC). O Projeto promove a utilização da metodologia da Educação pela Comunicação no âmbito escolar.

Novos papéis
Como mencionamos no início do artigo, a proposta da Educação pela Comunicação é transformar a ação educativa num processo de descoberta, questionamento, interação com as diversas realidades existentes e construção de novos saberes. Este processo pressupõe uma mudança nas relações entre os atores sociais, especialmente, neste caso, professores e alunos. “Ao longo do percurso, o trabalho coletivo foi possibilitando a re-significação dos papéis tradicionais. Os professores começaram a se perceber como provocadores e mediadores do processo de ensino-aprendizagem. Já os alunos descobriram-se enquanto co-autores e co-responsáveis. Os vínculos entre eles se estreitaram e a atividade escolar ganhou novo sentido”.4

O Projeto Escola Interativa trabalha estas questões através da divisão de tarefas e do compartilhamento de responsabilidades. Como a proposta é criar um produto de comunicação na escola – rádio, jornal, website, fanzine, revista em quadrinhos – todos são instigados a participar do trabalho. As ações são definidas, planejadas e realizadas segundo a orientação de um Núcleo Interativo, formado por professores e alunos. Estes personagens são os atores principais da ação, mas precisam e devem convocar outras pessoas, que irão contribuir com o projeto. Nossa experiência mostra que, à medida que o Núcleo Interativo se fortalece na escola, alunos vão ganhando mais autonomia, professores tornam-se mais ativos, integrados e motivados, e diretores compartilham as dificuldades e soluções para os problemas.

Bases das Ações
A metodologia proposta pelo Projeto Escola Interativa possui quatro eixos de trabalho: Identidade, Produção de Conhecimento, Leitura e Expressão e Mobilização Social. Estes campos do conhecimento, embora separados didaticamente por etapas de ação no Guia Metodológico, são, na verdade, interdependentes. A construção do Projeto Educativo ou Produto de Comunicação na escola precisa levar em conta esses aspectos, com maior ou menor grau de relevância, a depender da proposta.

Novas Sementes
Essa nova forma de promover a educação está sendo ampliada em 2005. Sete novas escolas da Rede Municipal de Ensino de Salvador estão introduzindo a metodologia na sua prática pedagógica, enquanto as instituições já participantes do Projeto Escola Interativa buscam ampliar a sua ação. Para isso, 130 professores estão passando por uma formação em Educação pela Comunicação com duração de oito meses, através de aulas presenciais e acompanhamento dos projetos nas escolas. Este processo de formação implica na elaboração de um produto de comunicação, realizado através da ação conjunta de professores e alunos, e identificado com a realidade e desejo da escola.
Mais uma iniciativa de disseminação da metodologia é o lançamento e distribuição da Coletânea Escola Interativa, que será o material didático utilizado na formação dos professores, bem como entregue a outros educadores em ações pedagógicas pontuais, junto a Secretarias de Educação de outros municípios do Estado.


1Idem. P.16
2DELORS, Jacques (org.). Educação – um tesouro a descobrir. Lisboa: Unesco/Edições ASA. 1996.
3“Códigos da Modernidade” de José Bernardo Toro in.: Aprendendo a Ser e a Conviver. Antônio Carlos Gomes da Costa.
4Idem. P.9

 

Referências Bibliográficas:
CITELLI, Adilson. Comunicação e Educação - A linguagem em movimento. São Paulo: Editora Senac. 1999.

Coletânea Escola Interativa – Guia Metodológico. Salvador: CIPÓ Comunicação Interativa. 2005.

Projeto Educom.Radio - http://www.educomradio.com.br/

Projeto Escola Interativa – Escola com Sabor – www.cipo.org.br/escolacomsabor


Dados do autor:
* Tatiane Souza
É jornalista formada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e educadora do Projeto Escola Interativa. O artigo contou com a colaboração de Mônica Santana.
tati-souza@ig.com.br
CIPÓ Comunicação Interativa. Rua Amazonas, nº 782, Pituba. CEP.: 41.830-380. Salvador – Bahia.

 
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