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Guerra: espetáculo de não-realidade

Por Wladimir Cazé*

A cobertura televisiva da guerra promovida pelos Estados Unidos e pela Inglaterra contra o Iraque escancarou, como poucos acontecimentos recentes, a dupla e contraditória face da comunicação de massa. Nas três semanas que durou a fase mais intensa do conflito, a mídia eletrônica oscilou entre mostrar e esconder os fatos, atendendo em alguns momentos à expectativa do público por imagens o mais próximas o possível da realidade e, em outros, à necessidade estratégica de controle da informação pelos comandos militares envolvidos.

E você? Digeriu a cobertura feita pela mídia sobre a guerra? Dê sua opinião aqui.

Televisão é essencialmente espetáculo. Como tal, uma transmissão jornalística - como as produzidas pelas emissoras ocidentais CNN e BBC ou pela
árabe Al-Jazeera - pode conter elementos ficcionais, que servem para aumentar o apelo emocional das imagens. A tempestade de
areia que se abateu sobre as tropas anglo-americanas no primeiro fim-de-semana da guerra, por exemplo, viraram assunto dos noticiários com
o mesmo tom dramático com que, num filme de Hollywood, um obstáculo imprevisto se opõe ao avanço do herói, intensificando o suspense quanto ao desfecho da trama.

Da mesma maneira, as tomadas dos bombardeios sobre Bagdá, levadas ao ar desde o primeiro até o último dias da invasão armada, revelaram o lado pirotécnico da destruição, como num show noturno de luzes e cores. Nessas transmissões, se perdia de vista a dimensão humana do "choque e pavor" (nome dado pelos generais norte-americanos à primeira etapa da operação militar) e aspectos jornalisticamente relevantes - possíveis mortos e feridos, por exemplo - ficavam em segundo plano.

Um jargão bastante conhecido afirma que informação é poder. Numa guerra, isso é ainda mais evidente. Interesses bélicos, políticos e econômicos podem interferir na liberdade de expressão e no acesso da população internacional às notícias. Nesse conflito, a situação não foi diferente. Na "guerra de informação", interessa conquistar o apoio da opinião publica tanto quanto vencer o oponente no campo de batalha. Ocultar erros militares e baixas por "fogo amigo" é apenas uma das estratégias.

A cobertura da guerra no Iraque obedeceu a um jogo entre realismo e ficção semelhante ao que se percebe nos reality-shows (programas como "Big Brother Brasil", da Globo, e "Casa dos Artistas", do SBT). Longe de desvendarem a intimidade dos participantes e flagrarem de suas relações pessoais, o que esses programas apresentam é uma mistura de realidade e encenação, feita sob medida para as câmeras - pelo simples fato de que os participantes sabem que estão sendo filmados e assistidos por milhões de pessoas e, assim, se comportam de acordo com uma dada expectativa.

No caso do "Big Brother Brasil", como a Globo não faz auditoria da votação popular, nada garante que o resultado do programa seja fiel à escolha dos vencedores. Na cobertura da guerra, emissores de TV conseguiram do comando militar norte-americano a autorização para enviar equipes de cinegrafistas e repórteres para o front, ao lado dos comboios. Com isso, pretendiam oferecer a seu público o máximo de realismo no registro das batalhas. Mas ao mesmo tempo, se tornaram presa mais fácil do controle e censura por parte dos senhores da guerra. Para estes, é preciso dar uma aparência de realidade ao que é mostrado, para tornar mais fácil esconder o que não lhes interessa divulgar.

* Wladimir Cazé é jornalista e autor das reportagens "A mídia entre o espetáculo e o sangue" e "Imagens sem fronteiras", sobre mídia, realidade e guerra, publicadas no jornal Correio da Bahia.

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