A cobertura televisiva da guerra promovida pelos Estados Unidos
e pela Inglaterra contra o Iraque escancarou, como poucos acontecimentos
recentes, a dupla e contraditória face da comunicação
de massa. Nas três semanas que durou a fase mais intensa
do conflito, a mídia eletrônica oscilou entre mostrar
e esconder os fatos, atendendo em alguns momentos à expectativa
do público por imagens o mais próximas o possível
da realidade e, em outros, à necessidade estratégica
de controle da informação pelos comandos militares
envolvidos.
Televisão é essencialmente espetáculo. Como
tal, uma transmissão jornalística - como as produzidas
pelas emissoras ocidentais CNN e BBC ou pela
árabe Al-Jazeera - pode conter elementos ficcionais, que
servem para aumentar o apelo emocional das imagens. A tempestade
de
areia que se abateu sobre as tropas anglo-americanas no primeiro
fim-de-semana da guerra, por exemplo, viraram assunto dos noticiários
com
o mesmo tom dramático com que, num filme de Hollywood,
um obstáculo imprevisto se opõe ao avanço
do herói, intensificando o suspense quanto ao desfecho
da trama.
Da mesma maneira, as tomadas dos bombardeios sobre Bagdá,
levadas ao ar desde o primeiro até o último dias
da invasão armada, revelaram o lado pirotécnico
da destruição, como num show noturno de luzes e
cores. Nessas transmissões, se perdia de vista a dimensão
humana do "choque e pavor" (nome dado pelos generais
norte-americanos à primeira etapa da operação
militar) e aspectos jornalisticamente relevantes - possíveis
mortos e feridos, por exemplo - ficavam em segundo plano.
Um jargão bastante conhecido afirma que informação
é poder. Numa guerra, isso é ainda mais evidente.
Interesses bélicos, políticos e econômicos
podem interferir na liberdade de expressão e no acesso
da população internacional às notícias.
Nesse conflito, a situação não foi diferente.
Na "guerra de informação", interessa conquistar
o apoio da opinião publica tanto quanto vencer o oponente
no campo de batalha. Ocultar erros militares e baixas por "fogo
amigo" é apenas uma das estratégias.
A cobertura da guerra no Iraque obedeceu a um jogo entre realismo
e ficção semelhante ao que se percebe nos reality-shows
(programas como "Big Brother Brasil", da Globo, e "Casa
dos Artistas", do SBT). Longe de desvendarem a intimidade
dos participantes e flagrarem de suas relações pessoais,
o que esses programas apresentam é uma mistura de realidade
e encenação, feita sob medida para as câmeras
- pelo simples fato de que os participantes sabem que estão
sendo filmados e assistidos por milhões de pessoas e, assim,
se comportam de acordo com uma dada expectativa.
No caso do "Big Brother Brasil", como a Globo não
faz auditoria da votação popular, nada garante que
o resultado do programa seja fiel à escolha dos vencedores.
Na cobertura da guerra, emissores de TV conseguiram do comando
militar norte-americano a autorização para enviar
equipes de cinegrafistas e repórteres para o front, ao
lado dos comboios. Com isso, pretendiam oferecer a seu público
o máximo de realismo no registro das batalhas. Mas ao mesmo
tempo, se tornaram presa mais fácil do controle e censura
por parte dos senhores da guerra. Para estes, é preciso
dar uma aparência de realidade ao que é mostrado,
para tornar mais fácil esconder o que não lhes interessa
divulgar.
* Wladimir Cazé
é jornalista e autor das reportagens "A mídia
entre o espetáculo e o sangue" e "Imagens sem
fronteiras", sobre mídia, realidade e guerra, publicadas
no jornal Correio da
Bahia.