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Informação
pra quê?
O jornalista Fernando
Rossetti
participa de pesquisa sobre projetos em
Educação pela Comunicação e pergunta:
como lidar com tanta informação?
O jornalista Fernando Rossetti participa de pesquisa sobre
projetos em Educação pela Comunicação
e pergunta: como lidar com tanta informação?
Certa noite, o jornalista Fernando Rossetti sonhou que subia em
uma árvore muito alta e, do alto de um dos últimos
galhos, assustou-se ao pensar em como desceria dali. Para ele, o
sonho é um reflexo da nova empreitada em
que se meteu: mergulhar no cotidiano de nove diferentes projetos
em Educação pela Comunicação em todo
o país e entender como funcionam, quais seus desafios e potenciais
e como ajudam a solucionar a questão do excesso de informação
na sociedade.
Financiada pela Unicef, a pesquisa empreendida por Rossetti vai
gerar, entre outros produtos, um manual para secretários
de educação, com orientações sobre como
desenvolver projetos em educação pelos meios. "Estamos
falando de uma coisa muito grande, de educação na
sociedade da informação. Todas as escolas vão
ter que lidar com isso, então temos que atingir as secretarias",
explica.
Em Salvador, o jornalista - que já trabalhou no jornal Folha
de São Paulo e na ONG paulistana Cidade Escola Aprendiz -
conheceu a sede da CIPÓ - Comunicação
Interativa, participou de debates com educadores e aprendizes
e visitou escolas participantes do Projeto Escola Interativa, desenvolvido
pela CIPÓ com escolas públicas municipais. Ele ainda
arrumou um tempinho para falar com o Guia Interativo Escola com
Sabor. Acompanhe o nosso bate-papo.
Escola com Sabor
- Educar para lidar com a informação
é o maior desafio da escola hoje?
Fernando Rossetti - É
um desafio de toda a educação. Hoje eu penso que a
educação não acontece só na escola,
mas em todos os lugares. Há vinte ou trinta anos atrás,
quando o rádio e a televisão começaram, você
escutava rádio com a família inteira sentada em volta
do aparelho, o lay out de assistir televisão era a
família sentada na sala vendo novela. Naquele momento, neste
jeito de receber a mídia, o pai fazia um comentário,
a mãe fazia outro, a criança outro, você estava
sistematizando o conhecimento, dando sentido aquilo que estava chegando.
Hoje, por uma série de razões como as mudanças
na família, na escola, nas religiões e em uma série
de instituições, os lugares mais tradicionais de
digerir e dar sentido à informação sumiram.
Então você vai ter que repensar a sociedade como um
todo para saber como se faz isso.
ES - Você já está
em trabalho de campo há um mês. O que já é
possível perceber sobre os desafios no uso dos meios de comunicação
na escola?
FR - Eu vejo duas questões
básicas. A primeira é a estrutura do sistema de
ensino, e a questão mais chave é a maneira como
são atribuídas as aulas. O jeito como vai ser definido
se o professor fica em uma escola ou na outra, o jeito como o diretor
é definido se fica naquela escola ou não fica, isso
pode dificultar ou facilitar muito os projetos. Na enorme maioria
das escolas públicas brasileiras, a rotatividade dos professores
e diretores é enorme, você não cria uma cultura
e não constrói uma identidade da escola. Às
vezes você vai, capacita os professores, constrói junto
o projeto pedagógico, e no ano seguinte muda todo mundo.
O segundo grande desafio é a relação professor-aluno.
Até pela formação e condições
de trabalho que os professores têm, eles têm uma dificuldade
em assumir uma relação mais horizontal com os estudantes.
Estabelecem em geral uma relação vertical, de transmissão
de informação, e não de construção
do conhecimento. Quando você insere a produção
de um meio de comunicação na escola, de jornal, site,
vídeo, rádio, muitas vezes o professor não
vai saber tudo, os estudantes vão saber mais alguma coisa
do que os professores... então mexe nessa relação.
E aí você tem que ver a disponibilidade do professor
de assumir esse outro lugar.
ES - E quais são os
potenciais dessa metodologia na escola?
FR - As vantagens são
várias. Primeiro, quando você faz algo com comunicação,
isso tende a horizontalizar as relações na escola.
Segundo, a comunicação é naturalmente inter
e transdiciplinar. Outra coisa muito vantajosa é que
a comunicação derruba os muros da escola. A
escola está muito ensimesmada, mas quem produz comunicação
vai comunicar para alguém. Alguns ainda fazem comunicação
na escola para si mesma, mas a boa Educação pela Comunicação
implica em uma relação com a comunidade. Ela faz isso
de uma maneira natural, e ao fazer isso ela cria uma visão
de responsabilidade social, uma leitura do mundo e uma relação
com a comunidade. Ela tende a ser um instrumento para gerar participação
dos estudantes. A última coisa fundamental é que os
jovens e as crianças gostam. Essa é uma das vantagens
enormes, ela é muito motivante.
ES - Em sua opinião,
a atuação intensa das ONGs junto ao ensino público
tira do Estado o seu dever de oferecer uma educação
pública e gratuita de qualidade?
FR - Eu acho que as pessoas
estão esperando demais da escola. Tem que ensinar sexo, religião,
cidadania, participação, português, matemática...
se as escolas públicas brasileiras estivessem fazendo bem
a aprendizagem da leitura e da escrita, da matemática e do
pensamento científico - se ela estivesse fazendo só
isso - já estariam cumprindo um papel fundamental na sociedade.
Talvez pudéssemos pensar em redes ou malhas educativas,
formadas por várias instituições, que teriam
um papel complementar e diferenciado na formação integral
do cidadão.
Qualquer cara de classe média ou alta pensa a educação
do filho não só na escola. O filho vai para a escola,
vai para a aula de capoeira, de artes, música, esportes...
faz uma série de outras coisas. A única educação
a que o pobre tem acesso é a escola pública. Ótimo,
é um progresso gigantesco você ter no Brasil 95% da
população de 7 a 14 anos na escola. Mas se a gente
está falando da escola pública na sociedade da informação,
não basta isso.
E qual seria o papel do Estado nessa visão? A saída
pode ser, como determinou o Darcy Ribeiro na Lei de Diretrizes e
Bases da Educação, a escola ir para o período
integral. Mas você pode pensar de uma maneira diferente: temos
que ter centros de juventude, ter boas bibliotecas, museus, centros
de informática, educação no trabalho... cada
um com seu projeto pedagógico para as pessoas circularem.
Você tem que pensar a cidade com espaços de educação,
e talvez o papel do Estado hoje seja muito mais de articulação
desses espaços e de permitir que todas as pessoas tenham
acesso a esses diferentes conhecimentos do que de cuidar apenas
da instituição escolar.
ES - Os professores que você
conheceu em seu trabalho de campo confirmam o estereótipo
do profissional desestimulado e sem esperança, ou a realidade
é diferente?
FR - A massa dos professores
das escolas recebeu uma formação fraca, recebe um
salário ruim, não tem horário para estudar,
não tem apoio para projetos inovadores, a grade curricular
é complicada porque não permite trabalhos mais interdisciplinares...
isso sem contar que o Brasil tem uma cultura da gestão da
educação a partir do centro e a partir de cima. Cada
secretário vem com seu projeto, os professores que estão
há vinte anos na escola já receberam dezenas de projetos
na cabeça. Eles são pessoas, até com razão,
desanimadas e descrentes. Eu não culpo e nem posso culpar
os professores, porque as condições dadas para
eles são péssimas, e o próprio salário
seleciona pessoas com uma capacitação menor do que
os desafios que estão colocados.
O que me surpreende é que apesar de tudo isso você
tem pessoas que metem as caras e vão, às vezes
brigam com o diretor, brigam com a secretaria para fazer projetos
novos. Toda escola, ou quase toda escola, tem essas figuras. As
escolas que eu vejo dar a volta por cima tem alguns condicionantes.
Um é a política do diretor. O outro são os
professores líderes, a gente precisa desses quixotes, os
projetos vão ter que identificar essas pessoas que têm
na veia a vontade de fazer uma educação diferente,
que vão quebrar a cara, vão aprender, quebrar a cara
de novo... mas que não têm medo de quebrar a cara.
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